Agosto Lilás: o território do silêncio
- Viajando De Lá Pra Cá

- há 11 minutos
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Por Deborah Dubner
Nem toda violência deixa hematomas. Algumas geram marcas invisíveis, que enfraquecem a autoestima, a confiança e a esperança. É sobre essa realidade que o Agosto Lilás nos faz refletir. Neste ano, a campanha coincide com um marco importante: os 20 anos da Lei Maria da Penha. Duas décadas de uma legislação que representa proteção, mas também um chamado permanente à informação, à conscientização e à coragem de romper o ciclo da violência.
Ainda assim, por que muitas mulheres permanecem em silêncio? Talvez a pergunta mais importante não seja por que elas se calam, mas o que acontece dentro delas para que sua voz vá se perdendo aos poucos. Porque a violência não atinge apenas o corpo. Ela também afeta a forma de sentir, pensar e perceber as próprias possibilidades.

Emoções podem aprisionar
A Ciência das Emoções nos ajuda a compreender melhor o invisível que move o ser humano. Existem emoções agradáveis e desagradáveis. Ambas são importantes, mas cumprem funções diferentes.
Emoções como medo e vergonha são essenciais para nos proteger diante das ameaças. No entanto, quando se tornam permanentes, podem aprisionar. A mulher que se cala, muitas vezes, habita um território marcado pela insegurança, pela impotência e pela desesperança.
Quando vivemos sob ameaça constante, o cérebro passa a priorizar a sobrevivência. A atenção se estreita, o corpo permanece em alerta e o horizonte parece encolher. Imaginar uma saída torna-se muito mais difícil.
Nosso cérebro aprende por repetição
A violência repetida pode ensinar uma lição cruel: a de que qualquer tentativa será inútil. Quando a desesperança se instala, o silêncio parece a única opção.
Por isso, a rede de apoio é tão importante. O cérebro precisa vivenciar segurança repetidamente para voltar a acreditar que existem alternativas. Acolhimento, proteção e suporte ajudam a reconstruir essa percepção.
A responsabilidade deve ser compartilhada
O Agosto Lilás não é apenas uma campanha para que mulheres denunciem. É um chamado para que a sociedade construa ambientes seguros, onde elas possam falar sem medo de serem desacreditadas, julgadas ou abandonadas.
A violência modifica a forma como a pessoa percebe o mundo, os outros e a si mesma. Mas ambientes seguros também transformam. Quando uma mulher encontra acolhimento e confiança, seu cérebro pode voltar a reconhecer possibilidades onde antes havia apenas ameaça. É assim que o silêncio começa a dar lugar à esperança.
O silêncio não precisa ser enfrentado sozinho. Se você vive ou conhece alguém em situação de violência contra a mulher, procure ajuda. Ligue 180. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia.
*Deborah Dubner é psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva, é também graduada em Ciência da Felicidade e professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência.


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