Crise do Livro
- Viajando De Lá Pra Cá

- há 18 horas
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Por João Carlos Viegas
Talvez por volta de oito anos, ganhei uma enciclopédia de meu pai e, ao ler um conto de Oscar Wilde, decidi ser escritor igual a ele e nunca mais me separei dos livros. Gosto de dar livros como presente e de receber. Moro na cidade de Niterói onde algumas livrarias ainda resistem e participei de uma feira literária na cidade que levou bom público. Desde que me entendo, ouço falar da crise do livro e da aversão que o Brasil teria a livros. Já ouvi que brasileiro até lê, mas, quando lê ficção, não gosta de escritor nacional. Ah! Não adianta argumentar que Paulo Coelho é muito lido por brasileiros que vão dizer que Paulo Coelho não é “literatura brasileira”. Aliás, qualquer argumento a favor do escritor brasileiro é rechaçado.
- Jorge Amado foi e ainda é muito lido.
R.: Jorge Amado era comunista e o comunismo internacional bancou o gosto do público.
- Erico Veríssimo, líder de vendagens.
R.: Erico Veríssimo deu aula nos Estados Unidos.
O Brasil perdeu escritores como JG de Araújo Jorge, poeta que vendia muito. No entanto, era criticado pelos intelectuais. José Mauro de Vasconcelos liderou a lista dos mais vendidos várias vezes. “Meu Pé de Laranja Lima” era lido por todas as gerações. Também falavam que era uma literatura limitada. Qualquer autor de sucesso no Brasil é rejeitado. Hoje, não se lê mais os citados e inúmeros outros. Cassandra Rios, Marília São Paulo Pena e Costa, Adelaide Carraro, Hélio do Soveral, MA Camacho.....
Crônicas foram sucesso e, segundo os especialistas, não vendem mais. Quando o conto começou a ter projeção, veio a crítica dizendo que qualquer um escrevia conto o que seria uma banalização do gênero. Um crítico chegou a chamar o conto de “o soneto dos anos setenta” numa comparação com os poemas parnasianos que pareciam saídos de uma forma tão padronizados seriam.
A atual crise dos livros, portanto, não é nova. Hoje, culpam a informatização, a Internet, os computadores, o ambiente virtual que domina o comportamento. No entanto, já culparam o gibi, a televisão, o rock, o samba e várias outras manifestações e veículos. Grandes redes de livrarias já fecharam por vários motivos e sempre houve uma desculpa para se pagar pouco direitos autorais aos escritores. Com as redes sociais, a crise do livro e a lamúria dos editores e dos livreiros circulam com mais rapidez. Porém, nada disso é novo.
Gosto de livros e de escrever desde que ganhei a enciclopédia de meu pai, aquela enciclopédia com contos de Oscar Wilde. E, desde que decidi, ler e escrever só ouvi (em maior número) frases que me desencorajam a continuar. Que brasileiro não lê, perdi a conta quantas vezes escutei. Que não serei escritor porque brasileiro jamais ganhou Nobel de literatura, já me falaram. Que livro morreu, isso já nem conto mais.
Dizem que Charles Chaplin, quando recebeu um Oscar pelo conjunto da obra. Isso foi na década de 60 e seria mais um pedido de desculpas dos Estados Unidos ao artista. Por causa da perseguição da direita raivosa (essa mesma que anda por aí), Chaplin se mudou para a Suíça um pouco depois da Segunda Guerra. Então, a Academia resolveu se redimir premiando Carlitos. Dizem (não sei se é lenda), o velhinho Chaplin falou para os mais próximos.
“Esse prêmio é muito mais pela minha persistência do que pelo meu talento.”
Um dia, decidi ler e ser escritor no Brasil. Longe de mim comparar meu talento com o talento de Charles Chaplin, mas minha persistência......
João Carlos Viegas nasceu no Rio de Janeiro e escolheu Niterói pra morar faz tempo. Roteirista de rádio e tevê com persistência para ser escritor, cursou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, na Universidade Federal Fluminense, formou-se em Comunicação Social/Jornalismo.
Além de “O Terceiro Cúmplice”, escreveu os romances '”O Segredo dos Nomes”, “Um sábado depois do fim do mundo” e “Segura essa, JDSalinger”; com o último ganhou o prêmio Álvaro Maia de melhor romance no I Prêmios Literários Cidade de Manaus, em 2006. Roteirista de rádio e tevê, também publicou “Carmem Costa, uma cantora do rádio'”, livro sobre importante fase da música popular brasileira. Atualmente, trabalha no romance “Incidente Joana D’Arc”.
E-mail: viegasfernandesjc@gmail.com

Foto: João Líbano

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