"Nós, os Justos" traz para o palco a cultura do cancelamento
- Cláudia Rolim
- há 4 horas
- 5 min de leitura
O novo texto do dramaturgo e diretor Kiko Rieser ocupa o palco do Teatro Itália com a Companhia Colateral a inédita Nós, os Justos, transformando rumores em uma grande empresa em uma parábola sobre o justiçamento e a cultura do cancelamento na contemporaneidade. No elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.

Fotos: Ronaldo Gutierrez
Vivemos um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se perigosamente tênue. Diante de acusações, boatos e versões conflitantes, o veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva e pela necessidade imediata de apontar culpados. É esse cenário que serve de base para Nós, os Justos,
Ambientada em uma grande empresa, a obra acompanha o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário e as consequências que se espalham pelos corredores, contaminando relações, decisões e reputações. Mais do que retratar um conflito individual, o espetáculo investiga como a cultura do cancelamento opera no plano presencial, no convívio cotidiano, corroendo o direito à defesa e o espaço da escuta.
Escrita originalmente em 2018, quando a "cultura do cancelamento" começava a se desenhar, a peça atravessou quase uma década sem modificações substanciais — exceto pela incorporação do conceito de compliance, hoje central no mundo corporativo. O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, ecoando episódios emblemáticos da vida real onde o desejo de vingança eliminou o direito à defesa.
A encenação reforça essa temática ao colocar o espectador diante de uma estrutura que mimetiza um julgamento, prendendo a atenção pela tensão constante. Rieser confirma que essa percepção de um tribunal em cena é o cerne da montagem. “A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada para que cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de julgamento que não oferece saída fácil ao público.”

Guerra de narrativas
Na trama, boatos sobre o suposto comportamento inadequado de um funcionário desencadeiam um processo interno de apuração. O que deveria ser um procedimento objetivo rapidamente se transforma em uma disputa de versões, interesses e percepções, onde a verdade deixa de ser um dado e passa a ser uma construção instável. Sem provas conclusivas, o caso passa a ser definido menos pelos fatos do que pela força dos discursos, sacrificando a complexidade em favor de interpretações simplificadas.
Kiko Rieser pontua que a peça nasce desse "caldeirão de emoções genuínas combinadas com a falta de racionalidade". Para o diretor, o cancelamento muitas vezes nasce de um clamor legítimo por justiça em contextos em que as instituições falham, mas o risco surge quando esse anseio se converte em desejo de punição imediata.
O espetáculo evidencia como, nas guerras de narrativas da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com uma versão conveniente. Trata-se de um retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de escuta: “A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição. Vivemos um tempo de extremos, em que o ato de julgar segundo princípios próprios tornou-se naturalizado”, conclui Kiko.
Manada invisível
Um ponto importante da peça é a presença invisível de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados ironicamente de “a manada”, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.
“A gravidade de temas como perseguição e abuso de poder exige equilíbrio e menos paixão”, pontua Rieser. “Quando a identificação imediata com uma história passa a importar mais do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça se torna enorme.” Ao evidenciar esse comportamento coletivo, o espetáculo revela como o desejo de “fazer justiça” pode facilmente se transformar em violência simbólica e exclusão. O diretor espera, por fim, que o público não reproduza esse comportamento ao sair do teatro: “O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento que prejudicam todos os envolvidos.”
Sobre a direção: matar o dramaturgo
Dirigir o próprio texto exige um exercício de desapego. Rieser afirma que, na sala de ensaio, "mata o dramaturgo" em prol da potência cênica. Um conceito fundamental na encenação dos Justos é que todos os atores, depois que entram em cena, não saem mais e ficam coexistindo em planos paralelos, mesmo que não estejam na ação dramatúrgica da cena. “Eu tento sempre distanciar muito a figura do diretor da figura do dramaturgo. O dramaturgo tem um olhar de encenador, mas quando eu vou para a sala de ensaio eu 'mato' o dramaturgo. Vira e mexe eu corto coisas, modifico coisas bruscamente e brinco para não contarem para o autor. Se eu tiver que realocar uma cena, vou ter que reescrever; a obra tem que estar a serviço da cena”, revela.
FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Kiko Rieser.
Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.
Assistência de direção: Letícia Calvosa.
Stand-in: Natália Moço.
Cenografia: Bruno Anselmo.
Desenho de luz: Rodrigo Palmieri.
Figurino: Marichilene Artisevskis.
Trilha sonora original: Marcelo Pellegrini.
Preparação corporal: Bruna Longo.
Consultoria de queda e dublê: Aline Abovsky.
Cenotecnia: Casa Malagueta, Alício Silva, Danndhara Shoyama, Igor b. Gomes, Larissa Baldissera, Shampzss e André Souza.
Costura: Judite Gerônimo de Lima.
Operador de som e luz: Rodrigo Palmieri.
Fotografia: Ronaldo Gutierrez.
Designer gráfico: Lucas Sancho.
Assessoria de imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira.
Gestão de mídias sociais e tráfego pago: CulturaLab.
Produção: Rieser Produções e Rodri Produções.
Direção de produção: Jessica Rodrigues.
Coordenação de produção: Carolina Henriques.
Produção executiva: Diego Andrade e Julia Terron.
Assistente de produção: Diego Leo.
Realização: Companhia Colateral.
SERVIÇO:
Nós, os Justos
Teatro Itália –Av. Ipiranga, 344 – Centro, SP.
Temporada: até 26 de abril.
Sessões – Sextas e sábados, 20h, domingos, 19h.
Ingressos: R$ 90(inteira) e R$ 45 (meia).
Classificação indicativa: 14 anos.
Link de vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/116694

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