Médicos Sem Fronteiras ressalta importância da adesão da comunidade no combate ao Ebola
- Cláudia Rolim
- há 11 minutos
- 2 min de leitura
Diante de uma epidemia de Ebola que se espalha de maneira preocupante, o caminho para deter seu avanço passa necessariamente pelo engajamento das comunidades atingidas. Elas precisam estar envolvidas e participar ativamente das medidas de prevenção e combate à doença. “Se não temos a comunidade conosco, é impossível ter uma resposta adequada”, explicou a dra. Rachel Soeiro, profissional de Médicos Sem Fronteiras (MSF) que trabalhou na Guiné durante a primeira grande epidemia da doença, ocorrida no oeste africano entre 2014 e 2016.
Rachel ministrou, nesta terça-feira, 18 de agosto, a conferência “Ebola: MSF e os desafios do enfrentamento da epidemia no campo” como parte da programação do Medtrop, o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, que acontece em Brasília.

Rachel Soeiro, médica de MSF, chamou a atenção para a necessidade de que mais recursos sejam destinados ao combate ao Ebola Foto: Natasha Bretas
A epidemia de Ebola foi declarada em maio deste ano na República Democrática do Congo (RDC). De acordo com as informações oficiais mais recentes, quase 5 mil pessoas já foram contaminadas, com 2.184 mortes. É a maior epidemia já registrada na RDC e avança de maneira mais rápida do que surtos anteriores.
A médica chamou a atenção para a necessidade de que mais recursos sejam destinados ao combate ao Ebola, mas enfatizou que a manutenção de um bom relacionamento com a comunidade passa, necessariamente, pela manutenção dos serviços de saúde para outras doenças.
“As outras necessidades clínicas não desaparecem. Não podemos ter uma crise dentro da crise só porque estamos cuidando do Ebola”, afirmou. “Partos continuam ocorrendo, vacinas precisam ser ministradas, ao mesmo tempo em que casos de tuberculose e HIV seguem necessitando de atenção”, disse, mencionando também a confusão comum entre os sintomas da malária, endêmica na RDC, e do Ebola. “Se a comunidade não entender que pode ser Ebola, eles não vão procurar atendimento e a doença pode se espalhar.”
A médica também ressaltou a necessidade de que as equipes de saúde sejam treinadas e recebam equipamentos de proteção para poder continuar atendendo os pacientes de maneira segura.
Ela explicou que o cenário atual é tão ou até mais complexo do que o vivido em 2014. Assim como naquela época, não há vacinas ou tratamentos para o vírus. Os estudos feitos até agora indicam que imunizantes e terapias desenvolvidos após aquela epidemia podem não funcionar com o vírus Bundibugyo, causador do surto declarado em maio. Além disso, os estoques de vacinas e tratamentos existentes estão em grande medida sob controle do governo dos EUA.
Adicionalmente, a região onde ocorre a epidemia é palco de conflitos armados que deslocaram milhares de pessoas. Isso dificulta o acesso de profissionais de saúde a pacientes e de pacientes a instalações de saúde.
Também não existem testes rápidos para detectar o vírus atual, o que leva a um cenário em que, de maneira geral, os atrasos no diagnóstico, no isolamento de pacientes e na implantação de ações de vigilância ampliam a transmissão.
Rachel acredita que a ausência destas ferramentas básicas é consequência dos investimentos escassos que foram feitos em pesquisas depois de passada a grande epidemia da doença. “A gente precisa ter estoques prontos antes que ocorram os casos da doença. Por isso, as pesquisas precisam continuar, para que quando a epidemia aconteça, tudo já esteja disponível”, afirmou.

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